A magia do cinema ::: Filmes que fizeram a história

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Em busca do ouroChaplin, Charles (1889-1977)


Filho de artistas do vaudeville londrino, Chaplin teve uma infância miserável e chegou a roubar comida para sobreviver depois que seu pai abandonou a família e sua mãe foi internada como louca.

Ainda adolescente obteve emprego na companhia teatral de Fred Karno e, ao fazer uma excursão pelos Estados Unidos, em 1913, foi contratado por Mack Sennett para trabalhar na Keystone, o maior estúdio de comédias do cinema mudo.

Ali Chaplin criou o personagem que o tornaria famoso: o vagabundo, de bengala e chapéu-côco.

Em 1919 fundou a United Artists, em sociedade com Mary Pickford, Douglas Fairbanks e David W. Griffith, e passou a produzir filmes de longa-metragem. Nos anos 20 sua carreira estava no auge, mas seus problemas amorosos começaram a se agravar. Sua primeira mulher, Mildred Harris perdeu o que seria seu primeiro filho e Lita Grey, com quem se casou a seguir, o processou.

Os escândalos se seguiram, mas talvez o de maior repercussão tenha sido seu casamento, aos 56 anos, com a filha do escritor Eugene O'Neill, Oona, de 18.

Nos anos 50 foi perseguido pelo macarthismo e, após uma excursão à Europa foi impedido de retornar aos Estados Unidos. Mudou-se então para a Suíça. Anos mais tarde, os americanos tentaram se redimir concedendo-lhe um Oscar especial.

Um dos grandes gênios do cinema, Chaplin também era responsável pelas trilhas sonoras de todos os seus filmes e criou canções imortais, como "La Violetera" - de "Luzes da Cidade", "Smile" - de "Tempos Modernos" - e "Limelight" - de "Luzes da Ribalta".

Principais Filmes:

Curtas:

·        Carlitos Repórter (1914)

·        Idílio desfeito (1914)

·        O Vagabundo (1915)

·        Casa de Penhores (1916)

·        Rua da Paz (1917)

·        O Imigrante (1917)

·        Vida de Cachorro (1918)

·        Ombro, Armas! (1918)

·        Idílio Campestre (1919)

·        Dia de Prazer (1919)

Longas:

·        O Garoto (1921)

·        Os Ociosos (1921)

·        Dia de Pagamento (1922)

·        Pastor de Almas (1923)

·        Casamento ou Luxo? (1923)

·        Em Busca do Ouro (1925)

·        O Circo (1928)

·        Luzes da Cidade (1931)

·        Tempos Modernos (1936)

·        O Grande Ditador (1941)

·        Monsieur Verdoux (1947)

·        Luzes da Ribalta (1952)

·        Um Rei em Nova York (1957)

·        A Condessa de Nova York (1966)


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Cena de Corrida do Ouro

 

 

 

Um Pensamento

 

Frases do Cineasta

" Quem está distante sempre nos causa maior impressão ".

" Estudei o homem, porque se assim não o fizesse, não conseguiria realizar nada em meu ofício ."

" Num filme o que importa não é a realidade, mas o que dela possa extrair a imaginação ".

" Amo a tragédia porque ela é bela. A única comédia que vale a pena é aquela que contém a beleza ".

" Uma das coisas que sempre procuro evitar é não exagerar ou insistir demasiadamente num ponto determinado. Quando se exagera na comicidade, a cena deixa de produzir risos e nada acrescenta ao filme."

" Muita gente me pergunta onde foi que me inspirei para criar a minha personagem. Na verdade, Carlitos aparece como sendo a síntese de muitos ingleses que eu via em Londres quando era jovem: tipos de pequena estatura, de bigodinhos pretos, roupas bem justas, e sempre portando uma bengala de bambu. A idéia da bengalinha foi a mais feliz de todas, pois foi ela que caracterizou a personagem e a tornou conhecida mais rapidamente. Desenvolvi o seu uso ao ponto de torná-la cômica por si só _ por exemplo quando ela se enroscava no pé de alguém ou puxava uma pessoa pelo ombro. Muitas dessas cenas acabavam por se tornar, inesperadamente, muito engraçadas."

" Um dos prazeres que sinto ao produzir um filme é constatar que muitas vezes uma cena inesperada _ ou até mesmo errada _ acaba dando certo ."

" Toda vez que assisto a um dos meus filmes, quando ele é apresentado pela primeira vez ao público, eu presto mais atenção na reação das pessoas do que na própria película _ nas situações que causam o riso e nas que não causam. "

" Não creio que a arte de representar possa ser ensinada. Já vi pessoas inteligentes fracassarem e pessoas estúpidas se saírem muito bem. O que a

" Com o uso da palavra não há mais lugar para a imaginação."

" Não creio na técnica, no passeio da câmera em volta das narinas e das orelhas das vedetes. Creio na mímica. Creio no estilo."

" Uma pessoa pode ter uma infância triste e mesmo assim chegar a ser muito feliz na maturidade. Da mesma forma, pode nascer num berço de ouro e sentir-se enjaulada pelo resto da vida."

" Durante a infância, a fome e o medo do amanhã eram duas constantes em minha existência. Por mais rico que possa vir a ser, jamais conseguirei me libertar desse medo. Sinto-me como um homem perseguido por um fantasma _ o fantasma da pobreza."

" Sem minha mãe, acho que jamais teria me saído bem na pantomima. Ela possuía a mímica mais notável que já vi. As vezes, ficava durante horas à janela olhando para a rua e reproduzindo com as mãos, os olhos e a expressão de sua fisionomia tudo o que se passava lá em baixo. E foi observando-a assim que eu aprendi não somente a traduzir as emoções com as minhas mãos e meu rosto, mas sobretudo a estudar o homem.."

" Quando comecei a fazer filmes cômicos, fazia-os só pelo dinheiro _ a arte apareceu por acaso. Se isso decepcionar alguém, nada posso fazer. É a verdade."

" Todas as minhas aspirações secretas, contidas, são satisfeitas quando escrevo e realizo um filme como O Grande Ditador. Entre o ditador e eu, não consigo distinguir qual é o verdadeiro Chaplin."

" Que eu seja um comediante - mas um comediante que pensa."

" Quando cheguei a Hollywood pela primeira vez, logo percebi que seia muito mais fácil para um judeu seguir carreira cinematográfica do que para um outro qualquer.

O primeiro produtor que me contratou julgou que certamente eu também fosse judeu ... e eu nunca o contradisse.

Nascido na classe mais pobre da Inglaterra, sem passado nem castelos, nem ancestrais a defender, eu não era dos que se embaraçaram com esse tipo de precedente: judeu eles me queriam, judeu então eu seria."

" Faço parte do mundo _ e no entanto ele me torna perplexo."

" Em toda a minha carreira cinematográfica sempre me guiei em grande parte, pela opinião pública. Essa opinião chegava a mim através de cartas que recebia, em conversas pessoais, mas sobretudo por intermédio da imprensa. DO mesmo modo, também me convenci de que a contribuição que estou prestando com a realização de meus filmes é bem maior do que aquela que poderia oferecer se estivesse nas trincheiras servindo à causa da guerra."

" Não sou político; sou principalmente um individualista. Creio na liberdade; nisso se resume a minha política ... Sou pelos homens; essa é a minha natureza."

" As duas personalidades que eu mais desejaria recriar em um filme seriam Napoleão e Jesus Cristo ... Não representaria Napoleão como um general poderoso, mas como um ser fraco, taciturno, quase melancólico e sempre importunado pelos membros de sua família. Quanto ao Cristo, gostaria também de modificá-lo no espírito das massas. Acho que a personagem mais forte, mais dinâmica e mais importante que já existiu, acabou por ser terrivelmente deformada pela tradição. Mostra-lo-ía, então, acolhido em delírio por homens, mulheres e crianças. As pessoas iriam ao seu encontro para sentir o seu magnetismo. Não mais seria um homem piedoso, triste e distanciado; um solitário que acabou por ser o maio incompreendido de todos os tempos."

" O amor é ajudado pela força. A doçura do perdão traz a esperança e a paz."

" Estou sempre alegre _ essa é a minha maneira de resolver os problemas da vida. Tenho a impressão de que os homens estão perdendo o dom do riso."

" Não posso crer que nossa existência não tenha sentido, que seja mero acidente, como nos querem convencer alguns cientistas. A vida e a morte são determinadas demais, por demais implacáveis, para que sejam puramente acidentais."

" Nunca achei a pobreza atrativa nem edificante. O que ela me ensinou foi só uma distorção de valores."

" O silêncio _ algo que não pode ser comprado _ quantos de nós saberíamos defrontá-lo ?

Os ricos compram o barulho. No entanto, nosso espírito se realiza quando estamos mergulhados no silêncio natural _ esse silêncio que jamais recusa aqueles que o procuram ... "

" A solidão é repelente. Tem um aura de tristeza, uma inadequação para atrair ou interessar, a tal ponto que nos sentimos ligeiramente envergonhados quando ela nos rodeia. Mas, num grau maior ou menor, atinge a todos."

POR FIM:

" O som aniquila a grande beleza do silêncio."

 

 

Luzes da Ribalta

Limelight

 

Ficha Técnica

 

Sinopse

 

História da Produção

 

Atores

 

Fotos

 

 

 

 

 

 

ficha técnica

 

Direção

Charles Chaplin

Produtor

Charles Chaplin

Roteiro

Charles Chaplin

Fotografia

Karl Struss

Assistente de Direção

Robert Aldrich

Direção de Arte

Eugène Lourié

Editor

Joe Inge

Coreografia 

Charles Chaplin (balé Morte de Colombina)

Andre Eglevsky

Melissa Hayden

Música

Charles Chaplin

Música - Arranjo

Raymond Rash

Larry Russell

Consultor Fotográfico

Roland Totheroh

Produção

United Artists

Duração

148 minutos

 

 

sinopse

 

 

 

 

história da produção

 

Charles Chaplin tinha 63 anos quando rodou Luzes da Ribalta (Limelight, 1952) em um tom quase de testamento. Cinco anos antes, Monsieur Verdoux, o seu anterior longa-metragem, apenas tinha coberto os gastos de produção depois de sofrer numerosos cortes por parte da censura e de ser repudiado pelo público. Por outro lado, o estranho clima político que os Estados Unidos viviam durante a Guerra Fria começava a repercutir diretamente sobre a vida de um cineasta que jamais tinha ocultado a sua ideologia liberal. Porém, além dessas circunstâncias profissionais e sociais, Chaplin incluiu neste seu último filme realizado nos Estados Unidos uma amarga reflexão pessoal sobre a velhice e o fracasso, com elementos tanto facilmente identificáveis quanto autobiográficos. O cineasta evita confirmar este aspecto nas suas seletivas memórias, mas, no parágrafo onde fala sobre a projeção privada que organizou para a imprensa britânica antes da estréia do filme em Londres, não pôde deixar de reconhecer: “filme me comoveu. Isto não é narcisismo pois posso me divertir com certas seqüências dos meus filmes e detestar outras. No entanto, não chorei como ardilosamente disse algum repórter e, mesmo que tivesse chorado, o que há de mal nisso? Se o autor não se emociona com a sua obra, não pode esperar que o público também se emocione”.

A partir desta ótica, Luzes da Ribalta procura despertar a sensibilidade do espectador, ainda que possua alguns traços próprios da comédia, a impossível história de amor entre Calvero, um grande palhaço em decadência, e Theresa, uma jovem bailarina que triunfa depois de superar uma tentativa de suicídio, se encaixa perfeitamente nos moldes do melodrama. Antes deste filme, cuja duração supera duas horas, Chaplin nunca tinha feito com que o seu público chorasse de forma tão direta, nem colocado tão explicitamente o lado mais amargo da difícil arte de fazer rir.

 

Origens Autobiográficas

 

Na sua autobiografia, o cineasta afirma que o personagem que inspirou a composição do protagonista de Luzes da Ribalta foi o comediante Frank Tinney. Na sua primeira viagem a New York, Chaplin o viu atuar em Winter Garden e ficou impressionado com a intimidade que mantinha com o público. Por outro lado, constatou alguns anos mais tarde que “a veia cômica o havia abandonado. Estava tão cheio de si mesmo – escreve o diretor – que não pude acreditar que fosse a mesma pessoa. Esta mudança que observei nele depois me inspirou a fazer o filme Luzes da Ribalta”.

No entanto, este não foi o único ponto de referência biográfica que o diretor utilizou no mesmo filme. Sempre atento às idéias retiradas da própria realidade que proporcionassem argumentos para o seu trabalho, Chaplin guardou por mais de vinte e cinco anos a lembrança de uma anedota contada pela atriz Louise Brooks a partir de uma cena que ambos dividiram em 1925, em um restaurante húngaro situado no gueto judeu de New York: “Ele foi á noite após noite – lembra a protagonista do famoso filme Loulou, dirigido por Georg W. Pabst em 1929. Só Deus sabe o porquê. Fazia o violinista tocar e lhe dava notas de cinco dólares. E quantos anos mais tarde fez Luzes da Ribalta? Ali estava a cena. Ele era o violinista”.

O título do filme vem das luzes utilizadas no cenário para iluminar os grandes artistas; “o sonho da fama transformado em luz” na feliz definição de Manuel Villegas Lopes. Mas, em inglês, Limelight também poderia significar Limey Light. A primeira destas palavras era precisamente o apelido que Mack Sennett usava para chamar Chaplin, em homenagem aos habitantes dos bairros mais humildes de Londres: Limehouse. Este filme também foi influenciado pelo seu casamento com a jovem Oona O’Neil. Foi o último, o mais duradouro e, provavelmente, o mais feliz de uma agitada vida sentimental, que, com o passar dos anos, entrava em declínio. “Apesar de toda a sua juventude Oona é mais sensata do que imaginava – declarou Chaplin à imprensa no início da rodagem de Luzes da Ribalta. Vou fazer sessenta e três anos, tenho trinta e seis anos mais do que ela, mas a minha maturidade me faz ser consciente da minha rudeza”.

Com o passar dos anos, estas peças isoladas se encaixaram com perfeição na consciência autobiográfica do cineasta – “a velhice tem que se retirar para dar lugar à juventude”, adverte a legenda inicial do filme – e, ao mesmo tempo, possibilitaram o desenvolvimento de alguns temas que já havia incluído em alguns filmes anteriores. A data na qual transcorre a ação de Luzes da Ribalta, 1914, não tem uma especial relevância na biografia do cineasta, mas, em contrapartida, não deixa de ser sintomático que situasse em Londres, a sua cidade natal, uma história relacionada com o mundo do music hall e protagonizada por um palhaço que, tal como o seu pai, tem problemas com a bebida.

O filme começa precisamente com a chegada do protagonista a uma pensão, onde tem um quarto alugado. Depois de uma série de imagens encadeadas, desde a rua até o vidro de comprimidos na mão de uma jovem inconsciente, em primeiro plano. Calvero sente um forte cheiro de gás e, apesar da sua grande embriaguez, derruba a porta, pega Theresa nos braços e a deixa nas escadas para só então ir à procura de um médico. Este lhe garante que a jovem está fora de perigo e recomenda-lhe repouso absoluto.

Tal como havia mostrado em filmes anteriores, a miséria vivida pelo personagem interpretado por Chaplin não o impede de cuidar de uma jovem com problemas. Filha de uma costureira e do quarto filho de um lorde deserdado, Theresa tem uma irmã que foi obrigada a trabalhar em um cabaré para lhe pagar os estudos e, como a cega de Luzes da Cidade (City Lights, 1931), também tem problemas de saúde. Neste caso, trata-se de uma febre reumática que a levou a ficar internado em um hospital durante cinco meses e interrompeu a sua promissora carreira de bailarina. Calvero a hospeda na sua casa, penhora o seu violino para comprar-lhe laranjas e exerce improvisados dotes de psicanalista para resolver o trauma psicológico que, na realidade, é o que a impede de voltar a andar. “Nós nos menosprezamos, o grande problema do mundo é o desprezo; na verdade, não estamos paralíticos, nós é que queremos assim”, afirma o personagem tratando o caso como um problema de todos.

Os dois personagens, unidos pelo desamparo e pela solidão, chegam ao amor inevitavelmente, mas, ao mesmo tempo, têm que enfrentar dois grandes obstáculos. O primeiro é a diferença de idade que há entre Calvero e Theresa. Chaplin, que foi casado quatro vezes e com mulheres muito mais jovens do que ele, quis, desse modo, destacar o gesto altruísta do seu personagem que desaparece da vida da jovem. Em uma cena anterior, usa Calvero para dizer uma frase repleta de significados que podiam, inclusive, ser autobiográficos: “Tive cinco esposas. Uma a mais, uma a menos, não tem importância. E concluiu:” além disso, cheguei a uma idade na qual é possível manter uma amizade platônica dentro da mais alta moral”.

O segundo impedimento, entretanto, irrompe na relação entre os protagonistas. Como no filme O Circo (The Circus, 1928), trata-se de um garboso galã, Neville, que, neste caso, a jovem conheceu quando trabalhava como balconista em uma papelaria e se enganava, de propósito, dando-lhe troco a mais. Na época, Neville deixava de comer para comprar papel pautado e escrever uma sinfonia que, acreditava, o faria famoso. O jovem  Neville, interpretado por Sidney Chaplin Jr. – o segundo filho de Chaplin –, admira Theresa desde que a conheceu e tenta convence-la da insensatez de uma relação impossível que, nesta ocasião, não tem um final feliz – como em O Garoto (The Kid, 1920) e Tempos Modernos (Modern Times, 1936) –, nem incerto – Luzes da Cidade (City Lights, 1931) e O Grande Ditador (The Great Dictator, 1940) –, e nem tampouco se interrompe por vontade própria – O circo (The Circus). Em Luzes da Ribalta, Chaplin não imitou a vida mas sim recorreu às leis do melodrama para encontrar o único final possível para um filme deste gênero. Pela primeira vez, o personagem de Chaplin, que já não é Carlitos, morre e, com ele, toda uma concepção do mundo do espetáculo.

Calvero é um nome tão mítico no mundo do espetáculo que ele mesmo pode ser Carlitos. Os velhos cartazes pendurados no quarto do personagem confirmam esse fato e todos os agentes e empresários que agora o contratam por caridade são conscientes disso, mas, ao mesmo tempo, sabem que acabou se transformando em veneno para a bilheteria. A música que chega da rua faz com que o personagem relembre os velhos tempos, mesmo que só em sonhos, e evoque diversos números onde alterna canções satíricas sobre a primavera com a paródia de um domador de pulgas. Chaplin retirou este número de um filme anterior que jamais chegou a exibir ao público, mas que acabou sendo parcialmente recuperado pelo historiador Kevin Brownlow para a série de televisão Chaplin Desconhecido (Unknown Chaplin).

Provisoriamente intitulado The Professor, este curta-metragem filmado em 1923 ainda sob o contrato com a First National foi uma tentativa do cineasta de se libertar do personagem de Carlitos. Usando um grande sobretudo, um chapéu de copa, sobrancelhas grossas e um grande bigode, Chaplin interpretava um suposto treinador de pulgas que se dispõe a passar a noite em um albergue. Ele ordena que um dos animais regresse à sua caixa com os mesmos gestos que depois repetiria em Luzes da Ribalta. Pretende dormir, mas derruba a caixa acidentalmente e as pulgas refugiam-se nos mendigos que dormem no mesmo quarto. O domador impõe a sua autoridade, inclusive com a ajuda de um chicote, e consegue recuperar as pulgas. Mas, logo depois, um cachorro fareja a caixa e provoca uma nova fuga dos animais e do treinador, que se autodenomina professor Boscos.

De qualquer forma, o número do domador de pulgas é apenas um sonho de Calvero, que desperta sobressaltado ao comprovar que os aplausos vêm de uma sala vazia. Quando o seu agente consegue um pequeno contrato no popular teatro Middlessex, o palhaço faz com que o público se entedie e vá embora. Mais tarde, quando Theresa já é uma bailarina de sucesso, consegue que Calvero interprete um pequeno papel de palhaço em um balé protagonizado por Arlequim e Colombina. Mas também não funciona. Acidentalmente, se encontra na rua com um antigo colega que foi contratado pelo empresário justamente para substituí-lo e, se até aquele momento Calvero tinha concordado em esconder o seu passado para poder continuar trabalhando, esta é a gota d’água. “A verdade é a última coisa que me resta, e talvez um pouco de dignidade”, lhe diz à jovem antes de desaparecer sem deixar rastros.

Depois de algum tempo, Neville, que tinha se convertido em militar por causa da Primeira Guerra Mundial, encontra Calvero atuando com um grupo de músicos ambulantes – como Chaplin já havia feito antes em O Vagabundo (The Vagabond), um dos curtas-metragens da sua fase na Mutual, onde o protagonista também promovia a carreira artística de uma jovem. Em Luzes da Ribalta, Calvero não duvida em pedir esmola e confirmar a sua verdadeira identidade. Primeiro é o seu criador que fala através dele para constatar que “o tempo é um grande autor, sempre escreve o final perfeito”. Porém, logo depois, o espírito de Carlitos é invocado, com o qual Calvero também se identifica ao afirmar que “isto de trabalhar pelas ruas tem o seu encanto. Talvez seja por causa do vagabundo que existe dentro de cada um de nós”.

O diálogo que Calvero e Theresa mantêm no seu encontro também se refere ao tempo. Nada voltará a ser o mesmo entre eles, mas a jovem expressa o seu desejo de não querer envelhecer e o velho palhaço usa a voz da experiência dizendo que “apenas nos transformamos” e que, no seu caso,deve continuar adiante. É o passo prévio à festa beneficente que o empresário e Theresa organizam em prol de Calvero.

 

Como nos Velhos Tempos

 

Todos sabem que é a última oportunidade e inclusive a claque está avisada para que nada falhe. Porém, Chaplin, e não Calvero, esconde uma carta na manga com a qual sabe que ganhará a jogada. O personagem ocupa, "como nos velhos tempos"– uma frase repetidamente citada no filme e que poderia ser o seu leit motiv –, o camarim das grandes estrelas. Contudo, deve dividi-lo com outro artista que é nada mais nada menos que Buster Keaton, visto que ambos personagens estavam no declínio das suas carreiras. Esta foi a única vez que estes dois grandes artistas do cinema cômico norte-americano atuaram juntos no cinema. “Como nos velhos tempos”, garante o diretor do filme O Maquinista da General (The General, 1926).

Depois de reconhecer que o teatro é a sua casa, Calvero entusiasma o público com o número das pulgas amestradas e interpreta uma canção satírica sobre as sardinhas. Os aplausos não são falsos, o delírio é espontâneo e os espectadores pedem outro número que o diretor de cena não tinha previsto. O empresário é taxativo: “que saia Calvero!”. E é então que um milagre acontece. Chaplin e Keaton aparecem juntos em um mesmo cenário para interpretar uma paródia musical. O primeiro toca violino, mas antes tem que se livrar de uma suntuosa gola engomada que o impede de controlar o instrumento. O segundo senta-se ao piano mas, na sua eterna luta contra os objetos, tem problema com as partituras. Não conseguem entrar em sintonia e trocam os instrumentos. Chaplin arrebenta as cordas do piano e Keaton pisa no violino, mas surpreendentemente, tudo se acerta e surge uma melodia que é música e também a bela arte da mímica.

O ritmo acelera e Chaplin cai no fosso da orquestra, em cima do tambor. Ao invés do público proletário do teatro popular, desta vez é o público burguês que entra em delírio – como maliciosamente observou o crítico francês Serge Daney –, marcando o início da agonia de Calvero. Um primeiro diagnóstico acusa uma fratura na espinha dorsal,mas isso não o impede de voltar ao palco, sem sair da caixa do tambor, e saudar um público rendido aos seus pés. Nos bastidores, o médico diagnostica um grave problema cardíaco. “Coração e mente, que grande enigma!”, exclama o comediante consciente do seu destino implacável: “Acho que estou morrendo mas, quem sabe, já morri várias vezes!”. Pede então um último desejo: permanecer junto ao palco enquanto Theresa dança. O comediante morre, a sua jovem pupila triunfa e as luzes envolvem tudo de fascinação enquanto soa uma das melodias mais famosas da história do cinema.

Vinte anos depois, em 1972, Chaplin recebeu um Oscar por esta trilha sonora, pois, em 1952, os problemas que o diretor teve com as autoridades norte-americanas impediram a estréia de Luzes da Ribalta em Los Angeles. Pelas normas, esta circunstância impedia que o filme concorresse às estatuetas, mas, finalmente, a razão e o talento se colocaram em favor da arte. O filme foi projetado em New York em outubro de 1952, acossado pelo boicote realizado pela Legião Americana e outras organizações de direita, mas, naquela época, Chaplin não estava mais nos Estados Unidos. Um mês antes, depois de árduas e complicadas negociações com o Ministério de Fazenda e o Departamento de Imigração – que lhe negava uma permissão de retorno a este país por ser estrangeiro –, Chaplin acabou perdendo a paciência. Pegou sua esposa Oona e os quatro filhos de ambos e embarcou no Queen Elizabeth com destino à Europa.

Luzes da Ribalta é um filme excepcional para a sua época, foi produzido no mesmo ano em que a Academia de cinema de Hollywood premiou Um Americano em Paris (Na American in Paris) como o melhor filme, George Stevens como o melhor diretor por Um Lugar ao sol (A Place in the Sun), Humphrey Bogart por sua interpretação no filme The African Queen e Vivien Leight por Um bonde chamado Desejo (A Streetcar Named Desire). Da mesma forma que chaplin estava à frente do seu tempo já nos anos vinte e demonstrou uma consciente rejeição à utilização do som nos seus filmes nos anos trinta, nos anos cinqüenta, estava dentro de uma torre de marfim própria que o colocava à margem das circunstâncias ao seu redor.

Filmado em preto e branco, “como nos velhos tempos”, este filme responde à planificação funcional característica do cineasta. Incorpora alguns movimentos de câmera até então insólitos, mas as tomadas costumam ser muito longas e abertas para permitir o brilho da interpretação do cineasta. Os primeiros planos, dotados de uma extraordinária intensidade, ressaltam os traços do protagonista e revelam, debaixo das densas camadas de maquiagem, o verdadeiro rosto do palhaço. Ocasionalmente, cai na tentação da mímica e imita uma árvore japonesa ou uma tulipa para levantar o ânimo da jovem. Mas é nas suas atuações no palco quando, caracterizado como palhaço, Chaplin incorpora Carlitos , não tanto pelo bigode maior que o habitual ou a indumentária de vagabundo mas pelo uso de uma gesticulação própria do seu período de esplendor. A força do ator se impõe à do diretor para realçar a natureza de um personagem que quis aproveitar a morte definitiva de Carlitos para abusar de alguns diálogos excessivamente retóricos, principalmente na primeira metade do filme.

Assim como observou Karl Struss, diretor de fotografia de O Grande Ditador e Luzes da Ribalta, este filme “era o mais interessante dos dois desde o ponto de vista fotográfico. Eu queria usar duas câmeras para cada tomada tal como havia feito em O Grande Ditador, mas ele não me deixou repetir esse artifício. Eu pensei que isso poderia ajuda-lo pois lhe proporcionaria material para a montagem, já que não sabia nada sobre direção de câmera. Os seus filmes eram puro teatro. Era muito tedioso trabalhar com ele. Eu só tinha que instalar a câmera, liga-la e deixar que ele e os outros atores atuassem diante dela”. Para um mago da luz que havia fotografado os claros-escuros de Amanhecer (Sunrise) sob a direção de Murnau, a filmagem de Luzes da Ribalta poderia parecer simples. Mas somente Chaplin era capaz de se colocar diante da câmera e transmitir sentimentos tão profundos como neste filme sem nenhum outro recurso além da própria imagem. Uma imagem que era a do seu personagem e, ao mesmo tempo, a de si mesmo.

 

Buster Keaton e a Televisão

 

O encontro profissional entre os dois grandes nomes do cinema cômico norte-americano era inevitável mas demorou muito para ocorrer. Na verdade, poderia ter acontecido antes de Charles chaplin e Buster Keaton terem alcançado a fama pois mack Sennett foi o primeiro mentor de ambos, mas tiveram de esperar que se passassem muitos anos até Luzes da Ribalta. A filmagem da cena durou três dias e Keaton cobrou por ela a irrisória quantia de 74 dólares. Chaplin convidou Keaton para que dividir com ela a última atuação de Calvero. Chaplin toca violino e Keaton o acompanha ao piano, depois de uma série de impedimentos absolutamente circunstanciais, e o dueto acaba sendo magistral.

No entanto, e em uma atitude arrogante, Chaplin não só excluiu o seu companheiro através de um enquadramento desfavorável e seletivo desta cena, como também ignorou totalmente este encontro nas suas memórias. Em contrapartida, Keaton relatou o histórico encontro entre ambos os gênios na sua autobiografia para destacar a sua recuperação profissional depois e um longo período de alcoolismo e de mostra uma opinião divergente à de Chaplin em seu conceito quanto à televisão.

Chaplin lhe disse, referindo-se a Oona e seu filhos, que, “não teríamos nenhuma forma de controla-los se os deixássemos assistir esta bobagem de televisão. Deveria ser eliminada. Está corrompendo todo o país”. Pouco depois, segundo Keaton, o diretor de Luzes da Ribalta lhe perguntou: “– E, agora, me explica o que você faz para estar tão jovem. O que faz você estar tão dinâmico?”

Como resposta, o diretor de O Maquinista da General (The General), que acabava de reaparecer em público através da televisão com duas transmissões semanais durante os últimos quatro meses, disse: “A televisão”.

 

A Família Chaplin no Cinema

 

Nascida em 1944, a filha mais velha de Charles chaplin e Oona O’Neil tinha apenas oito anos de idade quando apareceu em uma rápida cena de externas em Luzes da Ribalta, em companhia dos seus irmãos Michael e Josephine. O segundo interpretou um papel de maior importância em Um Rei em Nova York (A King in New York), mas a primeira foi a que chegou mais longe na sua condição de atriz. Casada com o cineasta espanhol Carlos Saura, protagonizou sob a sua direção filmes como Peppermint Frappé (1967), La Madriguera (1969), Ana y Los Lobos (1972), Cria Cuervos (1975), Elisa Via Mia (1977) e Los Ojos Vendados (1978). A sua carreira fora da Espanha, que havia começado com Doutor Zhivago (1965), de David Lean, prosseguiu com Os Três Mosqueteiros (Richard Lester, 1973), Nashville (Robert Altman, 1975), La Vie est um Roman (Alain Resnais, 1983), L’Amour Par Terre (Jacques Rivette, 1984) e The Moderns (Alan Rudolph, 1988).

Seus dois meio-irmãos, dos casamentos anteriores do seu pai, também aparecem em Luzes da Ribalta. Sidney interpreta o compositor apaixonado pela protagonista e Charles Jr. Acompanha o seu pai vestido de palhaço na representação do balé junto a outro parente, Wheeler Dryden, irmão do diretor por parte de mãe. Um dos planos filmados no interior do quarto do protagonista mostra a jovem deitada de bruços na cama. Porém, nesta ocasião, não se trata de Claire Bloom, e si de sua esposa, Oona O’Neil.

Chaplin gostava de filmar junto com a família e rodeado de amigos. Uma observação cuidadosa da cabeceira da cama de Calvero permite descobrir, sobre a mesma, uma foto de Edna Purviance, em uma homenagem à protagonista da maioria dos curtas-metragens do cineasta. Snub Pollard também fazia parte “dos velhos tempos” e, por isso, Chaplin lhe reservou o papel de um dos músicos ambulantes que estimulam a imaginação de Calvero e o fazem recuperar a sua verdadeira natureza de vagabundo.

 

 

os atores

 

Charles Chaplin

Calvero

Claire Bloom

Theresa

Nigel Bruce

 

Buster Keaton

Companheiro de Calvero

Sydney Chaplin Jr.

Neville

Norman Lloyd

 

Andre Eglevsky

Dançarino

Melissa Hayden

Dançarina

Marjorie Bennett

Sra. Alsop

Wheeler Dryden

Doutor de Theresa

Barry Bernard

John Redfern

Stapleton Kent

Claudius

Mollie Glessing

Empregada

Leonard Mudie

Doutor de Calvero

Loyal Underwood

Músico de rua

Snub Pollard

Músico de rua

Julian Ludig

Músico de rua

Charles Chaplin Jr.

Palhaço

Geraldine Chaplin

Pequena menina na abertura (não creditado)

Josephine Chaplin

criança na abertura (não creditado)

Michael Chaplin

criança na abertura (não creditado)

Victoria Chaplin

criança na abertura (não creditado)

 

 

fotos

 

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